MP 905: Bolsonaro de 2019 revela mágoas de Bolsonaro de 1986

Paulo Guedes, ministro da Economia e “Posto Ipiranga” de Jair Messias Bolsonaro

Com a edição da Medida Provisória 905, que ampliou a jornada quinquagenária dos bancários, das atuais 06 (seis) horas diárias e 30 (trinta) horas semanais para 8 (oito) diárias e 44 (quarenta e quatro) semanais sem aumento de salário, muitos bancários (que fizeram campanha e votaram em Jair Bolsonaro) se sentiram traídos.

Outros, porém, relembram que o então Capitão Bolsonaro de 1987, já demonstrava total rancor com os empregados dos Bancos Públicos Federais (Caixa e BB), no antológico artigo “O salário está baixo“, publicado na edição de 3.9.1986 da Revista VEJA.

De fato, ao se pinçar certos trechos de referido artigo, fica nítido o certo ranço que o então capitão nutria por esses funcionários… em certa medida, demonstra até certo desprezo, como se os mesmos fossem uma “subcategoria” quando comparados aos militares.

Vejamos alguns trechos:

Agora, na Nova República, novamente sofremos (nós, militares) uma grande perda salarial: a maioria dos trabalhadores, através de lutas sindicais que nos são expressamente proibidas, gozava de adiantamentos, trimestralidade, bônus e outros ganhos que foram incorporados aos salários. (…) Curiosamente, a reposição que nos foi negada, beneficiou a quase totalidade dos funcionários das empresas estatais.

Neste trecho, o então Capitão Bolsonaro se ressente pelo fato dos militares — em razão da estrita hierarquia — não poderem se organizar em sindicatos. Porém, é fato notório que os membros das Forças Armadas driblaram tal proibição, através de Associações e Clubes, que atuam de forma semelhante aos Sindicatos, para todos os fins de direito — exceto, no recebimento do imposto sindical.

Uma rápida passagem de olhos na tabela de salários do contingente que inclui terceiros-sargentos a capitães, demonstra, por exemplo, que um capitão com oito a nove anos de permanência no posto recebe — incluindo soldo, quinquênio, habitação militar, indenização de tropa, representação e moradia, descontados o fundo de saúde e pensão militar — exatos 10.433 cruzados por mês.

Neste outro trecho, o capitão se ressente do salário pago aos militares; como argumento, para não soar “elitista” demais, incluiu terceiros-sargentos em seu argumento.

Bolsonaro, porém, OMITIU outro fato que é notório entre os membros da tropa: o tratamento DESIGUAL e DISCRIMINATÓRIO que os praças (soldados, cabos, sargentos e suboficiais) e seus familiares recebiam dentro das Forças Armadas, onde vigorava (ou ainda vigora?) um verdadeiro APARTHEID SOCIAL entre “praças” e “oficiais”, que se materializou com a segregação de tais “castas” em clubes recreativos próprios (para a “elite” não se misturar com a “ralé”) e até mesmo, no atendimento em hospitais e clínicas militares.

Além disso, Bolsonaro sempre que pode, criticou o fato de trabalhadores celetistas terem uma série de direitos que os militares não têm; porém, o Capitão nunca mencionava as regalias que os militares sempre tiveram, como o direito a um impecável “sistema de saúde público” e uma “pensão quase perpétua” (que se transmite às filhas solteiras, após a morte da viúva do militar) — regalias, essas, das quais ele chega ao cúmulo de mencionar em seu artigo e se queixar de ter que contribuir por elas!!!

Isso é deprimente para um oficial que tem curso superior e, quase sempre, vários cursos militares. (…) Um salário inferior ao de muitos técnicos e funcionários sem qualificação de muitas estatais, como o Banco do Brasil, a Caixa Ecônomica Federal e a Petrobrás.

Por fim, nesse último trecho, Bolsonaro deixa claro a verdadeira ojeriza que nutria pelos empregados dos dois maiores bancos públicos federais (BB e CEF) e da petroleira estatal (Petrobras); para ele, é um absurdo que militares ganhem salários menores que, abre-se aspas para parafraseá-lo, tais “funcionários sem qualificação”.

Conclusão: cotejando-se as recentes medidas do “Presidente Bolsonaro de 2019” com a daquele “Capitão Bolsonaro de 1986”, fica-se com a impressão que o “Candidato Bolsonaro de 2018” beneficiou-se da indignação (e dos votos) dos bons funcionários do BB e CEF, cansados dos treze anos de desmandos petistas, apenas para se eleger e ter a oportunidade de vingar-se deles, trinta e tantos anos depois… ou estamos errados?

Abaixo, a íntegra do artigo que o “Bolsonaro de 1986” escreveu para VEJA:

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